OUTRA HISTÓRIA: em breve irei postar estórias inéditas.Os discos
Eles ocupam muito espaço. Mas isso não é problema para Elezer. Seus mil discos são guardados em uma sala especial, climatizada, localizada no melhor quarto de seu apartamento. Era seu orgulho. Todos que lá iam, maravilhavam-se com o tamanho da coleção.
Elezer não fazia nada da vida. Depois de ter cursado o ensino superior, o qual não fez bom proveito, resolveu voltar a morar com a mãe, um vez que, os alugueis não o permitiram ter morada própria. Era incompetente para tudo. Não sabia administrar nem o seu dinheiro, imagine responsabilidades. Aos trinta e três anos, parecia ter vida de dezessete. Porém isso não o abalava. Seguia sua vida na normalidade. Ele e sua mãe.
A mãe de Elezer, Dona Jacobina, era mulher batalhadora, desde quando trabalhava na plantação de mandioca no sertão da Bahia. Tinha feições duras, mas seu sorriso trazia a tona sua simpatia. Seu carisma era conhecido entre os vizinhos e sua casa vivia lotada de pessoas, principalmente mulheres. Dona Jacobina havia se transformado em costureira e era desta maneira que ela pagava as contas. O dinheiro da pensão deixada por Seu Firmino, mal dava para pagar os remédios e os caprichos por discos de Elezer.
Neste dia em particular, ele resolveu sair para comprar discos. Sua loja preferida era uma que ficava no pelourinho. Era a melhor loja de Salvador e realmente não existia nada comparado no mundo, pensava ele. Seus cantores preferidos eram muitos e uma lista de suas preferências não cabe aqui. Mas neste dia ele resolver comprar um disco de Chico Buarque, pois sua coleção estava incompleta.
- Você vai aonde, Elezer? – perguntou Dona Jacobina.
- Ô mãe, não me chama disso não. Me chama de “El”.
- Eu o quê, menino?
- Eu não mãe. “El”. “El disco”.
- Não foi este nome que eu e seu pai demos a você.
- Bem mãe, você pode me chamar como quiser. Tô saindo. A senhora tem algum aí?
- Bem, pegue na caixinha, mas não muito. Tem que comprar pão e café pra de noite. Vem pro almoço?
- Claro! Desde quando eu perco a comidinha esperta da Dona Jacobina?
- Desde quando você tem dinheiro pra pagar almoço fora?
Procurar o disco entre os milhões que existiam na Loja de Bartô Mil era missão quase impossível. Mas Elezer, ou melhor, “El disco” não estava sozinho nesta empreitada. Tinha ajuda de Duda K7, a rainha dos K7. Ela era filha de Seu Bartô e trabalhava na loja. Ela e Elezer tiveram um caso no passado. Coisa de três meses. Tempo suficiente para Elezer conseguir um disco raríssimo do Pink Floyd.
Maria Léia era o nome verdadeiro de Duda K7. Uma bonita mulher. Seus vinte e quatro anos eram muito bem disfarçados. Fazia o estilo largadona e para se envolver com ela, certamente, o homem teria de possuir um motivo muito forte. Ela tinha este apelido, dado por seu pai, devido sua paixão por k7. As pequenas fitas magnéticas operavam uma verdadeira paixão na pequena. Além de escutar, ela também gravava tudo em k7. Dos roncos do pai aos momentos solitários de prazer. Elezer já tivera suas experiências com Duda k7 gravadas por ela. Escutar aquilo era muito estranho. Mas não importava. O disco era mais importante.
- Espera um pouco que eu vou aqui. – disse Duda k7.
- Porque? ‘Tava’ tão bom.
- Vou pegar o gravador – disse quase sussurrando.
- Pra quê, pequena. O negócio é mais embaixo.
Duda trouxe o imenso gravador e colocou-o sob a cama. Elezer pensou que aquilo tudo era loucura. Mas não se incomodou. O disco era mais importante.
- Eu encontrei “El”.Não é este?
- Este mesmo pequena. “Brigadão”.
- Você nunca mais passou lá em casa. Hoje eu saio mais cedo, sabia?
- Sei, mas eu prometi a velha que eu ia almoçar lá. Tenho que fazer as vontades dela de vez enquanto. Me deixa bem informado sempre, tá?
Depois de ter adquirido seu precioso LP, Elezer decidiu passear um pouco pela Baixa dos Sapateiros. O comércio local era muito bom para comprar as roupas da ultima moda, a um preço bem em conta. Porém, como não tinha dinheiro, comprava na loja de Rosana, esta sem apelido aparente.
Rosana, a mulher que qualquer homem pediu a Deus. Sua descrição constava nos mais belos poemas. Só uma coisa não foi escrita: sua generosidade. Esta não é uma boa qualidade em mulheres. Um homem generoso já não é coisa que preste. Era dona de uma pequena loja. Movimentadissima. Tinha dez atendentes, mas quando Elezer chegou, ela própria foi recepciona-lo.
- Faz um tempo que você não aparece aqui.
- É que eu tô procurando emprego, sabe? Tá muito difícil com esse negócio de concorrência.
- Também, com estas roupas. Olha esta camisa. Nem eu te contratava assim.
- Então, como eu deveria estar vestido para arrumar um emprego, hein pequena?
Elezer tinha uma palavra que encantava as mulheres. Pequena. Desde que percebeu que esta pequena palavra conjurava grandes realizações, passou a fazer parte do seu vocabulário. Todas as mulheres para ele eram pequenas. Exceto Dona Jacobina. A velha era durona.
- Onde tá o almoço, mãe?
- São duas da tarde. O almoço sai ao meio-dia. Onde você estava? Fazendo compras?
- Presentes. Não são bonitos? Olha!
Dona Jacobina não se importava muito com as armações do filho. Desde que não caísse nelas. Fechava os olhos a estas coisas, pois temia que seu filho a deixasse. Ela estava muito feliz de ter seu filho ali, lhe fazendo companhia.