
O moribundo
Um dia, numa certa fila, um velho desses que se aproveita da velhice para passar na frente dos sãos, me disse: “Um dia você também vai ficar velho”. Tudo bem que não foram com estas palavras, nem esta a expressão, mas o sentido era o mesmo: Ficaremos todos velhos. O presente desta constatação nos aproxima da morte, a coisa mais temida dos homens. Mas os homens não sabem da morte, até que finalmente ela chega. Chega silenciosa, devagar, como quem não quer nada, e se mostra feliz e sufocante, como cair de uma cachoeira bem alta.
Já presenciei muitas mortes, de parentes próximos à pessoas que nunca conheci. Mas a morte que mais sentirei por não presenciar será a minha própria. Devem estar a se perguntar, porque ele quer presenciar a própria morte. Para me sentir consolado. O consolo de ver pessoas ao meu redor, rezando por mim, mostrando me que valeu a pena viver. Quanta solidão, quanta pena e quanto sofrimento. O cadáver não merece tamanho mistério. Ele, ali estirado, munido da verdade a que todos, um dia, descobrirão. Ninguém quer saber da verdade. E porque o fariam.
As ruas estão cheias de gente. Para mim, sempre estarão vazias. Tenho medo de andar pelas ruas. Para onde olho, não adiantando a posição, vejo cadáveres andando. Vejo pessoas de almas mortas. Um poema, uma poesia e um titulo de prosa. Quanta criatividade eu possuo no meu leito de morte.
A melancolia pulsa nas minhas veias e penso que não adianta tentar mais nada. Não adianta mexer o braço, nem acenar para o infinito. Só me resta esperar e esperar. Para os que anda vivem, o tempo passa rápido. Para os moribundos como eu, o tempo passa devagar, baixo como um suspiro.
A vida é pra os tolos,
Para aqueles que insistem em viver
Mas ainda existem estrelas no céu
Nos resta esperar pela criação.
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