16.6.09

contos antigos...


OUTRA HISTÓRIA: em breve irei postar estórias inéditas.


Os discos


Eles ocupam muito espaço. Mas isso não é problema para Elezer. Seus mil discos são guardados em uma sala especial, climatizada, localizada no melhor quarto de seu apartamento. Era seu orgulho. Todos que lá iam, maravilhavam-se com o tamanho da coleção.
Elezer não fazia nada da vida. Depois de ter cursado o ensino superior, o qual não fez bom proveito, resolveu voltar a morar com a mãe, um vez que, os alugueis não o permitiram ter morada própria. Era incompetente para tudo. Não sabia administrar nem o seu dinheiro, imagine responsabilidades. Aos trinta e três anos, parecia ter vida de dezessete. Porém isso não o abalava. Seguia sua vida na normalidade. Ele e sua mãe.
A mãe de Elezer, Dona Jacobina, era mulher batalhadora, desde quando trabalhava na plantação de mandioca no sertão da Bahia. Tinha feições duras, mas seu sorriso trazia a tona sua simpatia. Seu carisma era conhecido entre os vizinhos e sua casa vivia lotada de pessoas, principalmente mulheres. Dona Jacobina havia se transformado em costureira e era desta maneira que ela pagava as contas. O dinheiro da pensão deixada por Seu Firmino, mal dava para pagar os remédios e os caprichos por discos de Elezer.
Neste dia em particular, ele resolveu sair para comprar discos. Sua loja preferida era uma que ficava no pelourinho. Era a melhor loja de Salvador e realmente não existia nada comparado no mundo, pensava ele. Seus cantores preferidos eram muitos e uma lista de suas preferências não cabe aqui. Mas neste dia ele resolver comprar um disco de Chico Buarque, pois sua coleção estava incompleta.
- Você vai aonde, Elezer? – perguntou Dona Jacobina.
- Ô mãe, não me chama disso não. Me chama de “El”.
- Eu o quê, menino?
- Eu não mãe. “El”. “El disco”.
- Não foi este nome que eu e seu pai demos a você.
- Bem mãe, você pode me chamar como quiser. Tô saindo. A senhora tem algum aí?
- Bem, pegue na caixinha, mas não muito. Tem que comprar pão e café pra de noite. Vem pro almoço?
- Claro! Desde quando eu perco a comidinha esperta da Dona Jacobina?
- Desde quando você tem dinheiro pra pagar almoço fora?
Procurar o disco entre os milhões que existiam na Loja de Bartô Mil era missão quase impossível. Mas Elezer, ou melhor, “El disco” não estava sozinho nesta empreitada. Tinha ajuda de Duda K7, a rainha dos K7. Ela era filha de Seu Bartô e trabalhava na loja. Ela e Elezer tiveram um caso no passado. Coisa de três meses. Tempo suficiente para Elezer conseguir um disco raríssimo do Pink Floyd.
Maria Léia era o nome verdadeiro de Duda K7. Uma bonita mulher. Seus vinte e quatro anos eram muito bem disfarçados. Fazia o estilo largadona e para se envolver com ela, certamente, o homem teria de possuir um motivo muito forte. Ela tinha este apelido, dado por seu pai, devido sua paixão por k7. As pequenas fitas magnéticas operavam uma verdadeira paixão na pequena. Além de escutar, ela também gravava tudo em k7. Dos roncos do pai aos momentos solitários de prazer. Elezer já tivera suas experiências com Duda k7 gravadas por ela. Escutar aquilo era muito estranho. Mas não importava. O disco era mais importante.
- Espera um pouco que eu vou aqui. – disse Duda k7.
- Porque? ‘Tava’ tão bom.
- Vou pegar o gravador – disse quase sussurrando.
- Pra quê, pequena. O negócio é mais embaixo.
Duda trouxe o imenso gravador e colocou-o sob a cama. Elezer pensou que aquilo tudo era loucura. Mas não se incomodou. O disco era mais importante.
- Eu encontrei “El”.Não é este?
- Este mesmo pequena. “Brigadão”.
- Você nunca mais passou lá em casa. Hoje eu saio mais cedo, sabia?
- Sei, mas eu prometi a velha que eu ia almoçar lá. Tenho que fazer as vontades dela de vez enquanto. Me deixa bem informado sempre, tá?
Depois de ter adquirido seu precioso LP, Elezer decidiu passear um pouco pela Baixa dos Sapateiros. O comércio local era muito bom para comprar as roupas da ultima moda, a um preço bem em conta. Porém, como não tinha dinheiro, comprava na loja de Rosana, esta sem apelido aparente.
Rosana, a mulher que qualquer homem pediu a Deus. Sua descrição constava nos mais belos poemas. Só uma coisa não foi escrita: sua generosidade. Esta não é uma boa qualidade em mulheres. Um homem generoso já não é coisa que preste. Era dona de uma pequena loja. Movimentadissima. Tinha dez atendentes, mas quando Elezer chegou, ela própria foi recepciona-lo.
- Faz um tempo que você não aparece aqui.
- É que eu tô procurando emprego, sabe? Tá muito difícil com esse negócio de concorrência.
- Também, com estas roupas. Olha esta camisa. Nem eu te contratava assim.
- Então, como eu deveria estar vestido para arrumar um emprego, hein pequena?
Elezer tinha uma palavra que encantava as mulheres. Pequena. Desde que percebeu que esta pequena palavra conjurava grandes realizações, passou a fazer parte do seu vocabulário. Todas as mulheres para ele eram pequenas. Exceto Dona Jacobina. A velha era durona.
- Onde tá o almoço, mãe?
- São duas da tarde. O almoço sai ao meio-dia. Onde você estava? Fazendo compras?
- Presentes. Não são bonitos? Olha!
Dona Jacobina não se importava muito com as armações do filho. Desde que não caísse nelas. Fechava os olhos a estas coisas, pois temia que seu filho a deixasse. Ela estava muito feliz de ter seu filho ali, lhe fazendo companhia.

11.6.09

Mais um texto velho: assim como o tempo





O moribundo


Um dia, numa certa fila, um velho desses que se aproveita da velhice para passar na frente dos sãos, me disse: “Um dia você também vai ficar velho”. Tudo bem que não foram com estas palavras, nem esta a expressão, mas o sentido era o mesmo: Ficaremos todos velhos. O presente desta constatação nos aproxima da morte, a coisa mais temida dos homens. Mas os homens não sabem da morte, até que finalmente ela chega. Chega silenciosa, devagar, como quem não quer nada, e se mostra feliz e sufocante, como cair de uma cachoeira bem alta.
Já presenciei muitas mortes, de parentes próximos à pessoas que nunca conheci. Mas a morte que mais sentirei por não presenciar será a minha própria. Devem estar a se perguntar, porque ele quer presenciar a própria morte. Para me sentir consolado. O consolo de ver pessoas ao meu redor, rezando por mim, mostrando me que valeu a pena viver. Quanta solidão, quanta pena e quanto sofrimento. O cadáver não merece tamanho mistério. Ele, ali estirado, munido da verdade a que todos, um dia, descobrirão. Ninguém quer saber da verdade. E porque o fariam.
As ruas estão cheias de gente. Para mim, sempre estarão vazias. Tenho medo de andar pelas ruas. Para onde olho, não adiantando a posição, vejo cadáveres andando. Vejo pessoas de almas mortas. Um poema, uma poesia e um titulo de prosa. Quanta criatividade eu possuo no meu leito de morte.
A melancolia pulsa nas minhas veias e penso que não adianta tentar mais nada. Não adianta mexer o braço, nem acenar para o infinito. Só me resta esperar e esperar. Para os que anda vivem, o tempo passa rápido. Para os moribundos como eu, o tempo passa devagar, baixo como um suspiro.

A vida é pra os tolos,
Para aqueles que insistem em viver
Mas ainda existem estrelas no céu
Nos resta esperar pela criação.

7.6.09

Quadrinhos e o infinito ao meu redor





Desculpa senhores. Lembro-me de ter prometido a vocês que esceveria com mais frequência. A vida, contudo, dá contornos pelos quais nem esperamos. Estou aqui, e sempre estive. Infelizmete, espíritos não escrevem palavras.


Lembro-me qu quando criança,escrevi em meu caderno de escola, uma pequena estória gráfica, sobre três personagens,os "Japas". Estranhamente, nenhum deles era nipônico ou descendente desses. Os heróis matavam uma bruxa e salvavam João e Maria.

Quadrinhos é uma expressão que no português tem uma certa conotação infantilizada. Adultos, a principio, não deveriam ter contato com este tipo de leitura. Quadrinhos são arte? Quadrinhos são literatura? O que, afinal, são os quadrinhos? O cinema para mim parece ser coisa já esclarecida. Trata-se de arte e indústria. Estética e entretenimento. Anatol Rosenfeld já falava sobre isso. A história do cinem está fortemente catalogada. Os filmes, com o advento do dvd e da internet, estão disponíveis para todos, a preços razoáveis (ou até de graça!).

Já a arte sequêncial, nos dizeres de Eisner, é um mistério do tipo Chinatown.

Procurar referências sobre sua história é uma jornada nada fácil. Títulos zero quilômetro? Impossíveis de serem encontrados. Artigos na internet são poucos. Existem blogs, comunidades no orkut, sites. Mas,poucos são os livros. E só estou falando de história.

É fundamental que qualquer mídia tenha uma referência pretérita, não só para os profissionais da área, mas também para todos aqueles que queiram educar sua leitura.

Em fins de Maio, uma das maiores editoras brasileiras, aquela cujos livros nunca têm descontos em livrarias nem feiras, a Companhia das Letras, lançou no mercado um novo "selo": Quadrinhos na Cia.. Este pretende lançar livros cuja linguagem seja os quadrinhos. E no principio foram lançados quatro. Devo adveritir aos incautos que não devemos nos precipitar. Aos intusiastas, que o mundo não gira em torno de seus umbigos. Aos mediócres, que nada foi ainda feito de substâncial. E aos desatentos, que a vida ainda não acabou. O fato é que, lançar quatro obras, que são reconhecidamente premiadas no cenário internacional (exceto Jubiabá, que é uma espécie de encomenda), sem dar oportunidade ao leitor de pelo menos treinar seu olhar, saber do que se trata, apenas concentrar a atenção no produto final, sem ao menos refletir a linguagem utilizada, dar meios para que os leitores de fim de semana saibam se preparar, não torna esse lançamento um dos mais importantes do ano. Trata-se de um fato, cuja importância só será atribuída pelos homens futuros.

Escrevi esta denunia para dizer que os quadrinhos me surpreendem. E muito. Primeiro, desde que tomei conhecimento dos lançamentos da linha Quadrinhod na Cia., fiquei muito curioso para ler a história de "Retalhos". Acho que foi no Omelete que li sobre. E minha curiosidade fez com que comprasse o livro sem nem ao menos ver o preço (Retalhos, Craig Thompson, Quadrinhos na Cia., R$ 49,00, Megastore Saraiva/Salvador). É a mais encantadora estória que li e vi sobre a vida. Conta Comigo e Meu primeiro amor são fichinha perto desde. Não quero fazer um comentário como um jornalista. Quero escrever como um leior, que se interessa e que icou estremamente surpreso com a resposta. Não sei se consigo transmitir isso em palavras.

Mas, para não dizer que tudo são flores, gostaria de dizer o quanto a religião é deturpada pelo autor. Acho que suas experiências devem ser vistas como únicas e extremamente particulares. Aquela é a leitura de mundo de Craig. Não esqueçam disso. Não se deixem influênciar por ele, pois isso seria estremamente perigoso.

Para terminar, gostaria de dizer o seguinte: Marisa Monte. O ultimo DVD da cantora mais classe A do Brasil é muito bom. Trata-se de um documentário. Não que seja um produto cuja sinceridade chegue a 100%. Trata-se, contudo, de uma aula de coo se produzir discos comerciais no Brasil. Apesar de termos conhecimento de aluguns pontos, ela (Marisa) torna-os explícitos e agradavelmente explicados. Todo ao som dos seus ultimos discos "Infinito Particular" e "Universo ao meu redor".

Vale conferir.

Os dois.