17.1.06

Le Voleur

Nuvens denunciavam que iria chover a qualquer momento. Não é uma atitude típica do clima de Salvador. Principalmente no verão e com a cidade impregnada de turistas. Por falar em turistas, esta cena aconteceu ontem numa das muitas ruas do centro da cidade. Um casal de franceses, com mais ou menos setentas anos cada um, passeavam pela Barroquinha. O guia certamente os orientara para não andar por aquele bairro de lojas baratas e populares ávidos por compras de natal. É muito estranho a televisão local não mostrar flashes ao vivo da Barroquinha mostrando o movimento. Mas lá não circula volúpias quantias de dinheiro. Só mesmo uma quantidade muito grande de negros e negras e alguns pontos brancos no oriente. Mas vamos dizer que isso nunca foi problema para a cidade do Salvador. Voltando aos franceses, estes queriam encontrar o caminho do Pelourinho. Até ai nenhum problema, tratava-se de um caso normalíssimo de “gingos perdidos na cidade”. Porém é ai que reside o perigo. Recém chegados, sem falar uma única palavra em português (pois sejamos sinceros, saber falar “Ronaldinho”, “Pelé” e Carnaval, não é lá muito útil), eram presas fáceis para cretinos, ladrões os aproveitadores. Mas não é que a sorte estava do lado dos franceses. Vindo do serviço, Zé andava tranqüilamente pelas ruas comerciais à procura de um presente para as duas filhas, motivo de extremo desgosto por parte da mãe. Antes que chegasse à porta da “Modas Cláudia”, ele avistou aquele casal visivelmente “perdidos no espaço”. Sua moral cristã, sua educação barroca e sua boa vontade de anfitrião o predispuseram a ir até este casal a oferecer lhes ajuda, já que o Pelourinho era ali perto e facilmente iriam encontrar ajuda lá. Com o olhar fixo, ele se aproximou do casal e perguntou se precisavam de ajuda. A mulher teve uma reação um tanto inesperada. Ela começou a gritar: “Voleur! Voleur! Aide-moi!”. Zé, que não entende uma só palavra em francês, começou a atrair a atenção das pessoas em volta. Como era época de natal e se tratavam de estrangeiros, os policias que estavam à paisana se aproximaram e perguntaram: “Colé o problema?”. Ele explicou a situação. A mulher não parava de pegar no braço do policial e gritar apontando para Zé: Voleur! Voleur! Aquilo já estava se tornando uma situação bastante embaraçosa, até que um dos policiais disse: “Pode ir, vamos ver qual o problema dessa dona aqui!”.
Zé recomeçou, então, a andar pelas ruas movimentadas do bairro da Barroquinha, escolhendo os presentes das filhas. Ficou bastante intrigado quando quatro viaturas da policia local corriam em direção ao Pelourinho e pensou com seus botões (que mais pareciam roupas à R$ 5,99): “Deve ter acontecido alguma merda!”. E de fato, ele tinha razão. Na Delegacia do turista, a Mmé Arnout explicava para a policia em bom e claro francês, que um selvagem de aparência monstruosa atacara ela e seu marido, que era mudo e não pôde contar sua versão da problemática imediatamente.
Após chegar em casa, ele explicou a mulher como tinha sido seu movimentado dia e suas filhas, para extremo desgosto da mãe, passaram a chamar carinhosamente o pai de “Vulê”.